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sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Advertência: A evocação contínua de memórias pode causar efeitos colaterais graves.


A distância entre a vivência e a realidade causa lacunas e dúvidas, impelindo o ser humano a sobrepô-las com "fatos". 

P.S.: A minha semana foi infernal. Mais uma vez eu cheguei ao meu limite. E mais uma vez eu pensei: Eu acho que vou morrer. Mas eu não morri, ainda estou aqui e a conclusão da semana foi que eu não fiz nenhum avanço, só retrocessos. Eu fiz tudo errado, enganei os outros a mim mesma no processo e ainda continuo pensar em como errar mais. Eu nem sei como explicar. Eu sou um erro, mas agora, nesse instante, isso não parece tão ruim. Ontem sim, mas hoje não. Eu ontem li essa frase num livro, enquanto esperava que o trânsito permitisse que o meu ônibus finalmente me tirasse da minha quinta feira dos infernos. Ela me fez pensar e esquecer por um segundo os meus erros. Desabafei. Fim.

domingo, 2 de setembro de 2012

Retalhos

Não, não é fácil. Não é simples. Não é tranqüilo.
Não é nada daquilo que eu imaginava. Não é!


Na minha janela o dia morre
e mais uma vez e eu penso na morte.


Eu penso naquele dia, aquele dia... o dia em que nada mais terá sentido. Um dia nada mais terá sentido. Um dia eu vou morrer. Parece tão... fácil...

Não se preocupe, eu estou bem.
Eu SEMPRE estou bem!

Eu sou uma boneca de porcelana. Bela. Pálida. Quebradiça. Frágil não, só delicada, se é que você me entende... Talvez não entenda, mas de toda forma eu não vou saber se você me entende ou não. Isso não é essencial. Vive-se muito bem quando a gente não se importa muito com as coisas. O difícil é viver quando a gente se importa, ou vice-versa. Confuso...


Eu tenho mania de rimas.
Errática, lunática, sorumbática...
Eu tenho mania de manias.
A caneta vermelha com os vermelho mais vermelho.
Arrumar a cama só para desarrumar mais tarde.
Pintar a cara para ficar (ainda mais) bonita.
Cozinhar a manhã inteira de salto alto só para amaciar o sapato.
Vick vaporub nos pés (nem me pergunte!).


Às vezes as rimas não rimam...
Às vezes manias não são só manias...
Às vezes...

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Lençóis de seda

Uma cama nunca é só uma cama. Os lençóis nunca são só lençóis. O desejo nunca é só desejo. Eu entrei no quarto com paredes de veludo. Joguei a bolsa e o casaco na poltrona e tirei os sapatos. No móvel do canto encontrei uma jarra de cristal com vinho e algumas taças. Eu escolhi uma taça e me servi. Sedenta, bebi tudo de uma vez. A segunda taça eu bebi com mais calma, enquanto andava pelo quarto tocando as paredes com a ponta dos dedos. A terceira taça eu saboreei sentindo a brisa da noite na janela. Olhei o relógio e o meu coração acelerou. O último gole. Juntei a minha taça as outras e me sentei na cama com lençóis de seda. Senti o calor do vinho se espalhando por todo o meu corpo.

Ele entrou e chaveou a porta. Ele me deu aquele olhar que sempre me fazia tremer. E como sempre o mesmo sorriso provocador. Ele se serviu de um pouco de vinho. Mais uma taça junto as outras. Nenhuma palavra, nunca. Eu me deitei na cama com lençóis de seda. Ele se deitou na cama com lençóis de seda. Os corpos nunca foram nossos, nunca nossos, sempre foram só de um ou do outro. Culpamos o desejo, seja lá qual fosse, de quem fosse, pelos lençóis manchados e amarrotados. O prazer de um nunca é o mesmo que o do outro, o prazer de cada um é sagrado, é santo.

Eu me vestia na frente do espelho e sabia que ele me olhava. Ele se aproximou por trás e colocou as mãos nos meus ombros. Eu não conseguia abrir os olhos. Eu queria vê-lo, mas eu não conseguia abrir os olhos. Ele cheirou o meu cabelo e me beijou no pescoço. Então, ele se soltou de mim e foi em direção a porta. Eu abri os olhos e me vi no espelho. Eu me virei e sufoquei, não consegui falar. Ele me olhou por uns segundos e desviou o olhar. Eu senti as lágrimas vindo e fechei os olhos. Eu esperei que ele se fosse. "Eu sei. Eu também." ele disse com uma voz suave. Eu abri os olhos e ele já não estava mais lá. Só me restou o silêncio e os vestígios de nós dois.

Foto por Robert Doisneau.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Um fim de tarde com Persuasão

Toda vez que leio a carta do Capitão Frederick Wentworth endereçada a Anne Elliot, ambos personagens do romance Persuasão de Jane Austen, eu me rendo a uma melancolia cheia de suspiros. E se, quem sabe talvez algum dia, eu recebesse uma carta assim? Eu me questiono toda vez, talvez até mesmo, todo dia.















"Não posso mais ouvir em silêncio. Preciso falar com você pelos meios de que disponho neste momento. Você fendeu minha alma. Sou metade agonia, metade esperança. Não me diga que é tarde demais, que sentimentos tão preciosos foram-se para sempre. Ofereço-me para você de novo com um coração muito mais seu do que quando você quase o despedaçou há oito anos e meio atrás. Não se atreva a dizer que o homem esquece mais rápido do que a mulher, que seu amor morre mais cedo. Eu tenho amado somente você, mais ninguém. Injusto posso ter sido, fraco e ressentido também, mas nunca inconstante. Você, apenas você trouxe-me para Bath. Faço planos pensando somente em você. Você ainda não percebeu? Terá você falhado em entender meus desejos? Eu não teria esperado nem estes dez dias se tivesse podido ler seus sentimentos como eu penso que você penetrou nos meus. Quase não posso escrever. A todo instante ouço alguma coisa que me atordoa. Você abaixa sua voz, mas eu posso distinguir seus tons mesmo quando perdidos em meio aos outros. Boníssima e excelente criatura! Você nos faz justiça, deveras. Você crê que há afeto verdadeiro e constância entre os homens. Creia “nisto” mais fervoroso e constante em F.W.

Devo partir – incerto de minha sorte –, mas voltarei aqui ou irei para sua festa, assim que possível. Uma palavra, um olhar, será o suficiente para que eu decida entrar na casa de seu pai esta noite, ou nunca."















Obs.: Imagens do filme Persuasion.

quarta-feira, 14 de março de 2012

O π tem dia?

Sim, o número π tem um dia só dele. E como eu não consigo renegar o lado matemático que há em mim, assim como o meu lado poético, eu preparei uma pequena homenagem usando as palavras da escritora polonesa Wislawa Szymborska. Há pouco tempo descobri os escritos dessa notável escritora ganhadora no prêmio Nobel de Literatura de 1996, lamentavelmente por causa do seu falecimento no início do mês de fevereiro deste ano, mas mesmo assim, a mais breve leitura de seus pouquíssimos poemas traduzidos incitou um grande fascínio por sua obra. O poema Pi é apenas uma pequena amostra, espero que gostem.



PI

O admirável número pi
três vírgula um quatro um.
Todos os dígitos seguintes são apenas o começo,
cinco nove dois porque ele nunca termina.
Não se pode capturá-lo seis cinco três cinco com um olhar,
oito nove com o cálculo,
sete nove ou com a imaginação,
nem mesmo três dois três oito comparando-o de brincadeira
quatro seis com qualquer outra coisa
dois seis quatro três deste mundo.
A cobra mais comprida do planeta se estende por alguns metros e acaba.
Também são assim, embora mais longas, as serpentes das fábulas.
O cortejo de algarismos do número pi
alcança o final da página e não se detém.
Avança, percorre a mesa, o ar, marcha
sobre o muro, uma folha, um ninho de pássaro, nuvens, e chega ao céu,
até perder-se na insondável imensidão.
A cauda do cometa é minúscula como a de um rato!
Como é frágil um raio de estrela, que se curva em qualquer espaço!
E aqui dois três quinze trezentos dezenove
meu número de telefone o número de tua camisa
o ano mil novecentos e setenta e três sexto andar
o número de habitantes sessenta e cinco centavos
a medida da cintura dois dedos uma charada um código,
no qual voa e canta descuidado um sabiá!
Por favor, mantenham-se calmos, senhoras e senhores,
céus e terra passarão
mas não o número pi, nunca, jamais.
Ele continua com seu extraordinário cinco,
seu refinado oito,
seu nunca derradeiro sete,
empurrando, sempre empurrando a preguiçosa
eternidade.

sábado, 12 de novembro de 2011

A Ofélia de Shakespeare e suas Representações

Prólogo

Há algum tempo venho investigando a importância da personagem Ofélia da obra Hamlet de Shakespeare em diversos campos artísticos. Minha motivação surgiu do fato de que Ofélia nutriu o imaginário de diversos pintores e poetas da antiguidade e que, ainda hoje, continua a incitar o interesse de artistas atuais. Pretendo fazer uma breve exposição da trama da peça Hamlet para contextualizar minha análise pessoal e despretensiosa sobre a importância e significado de Ofélia na obra de Shakespeare. E em seguida apresentarei também algumas representações da personagem Ofélia na pintura, poesia e fotografia. Espero que apreciem este post singelo e costumeiramente aleatório.

A peça Hamlet é considerada a obra mais densa de Shakespeare, devido a intensidade dramática da trama e da profundidade de seus personagens. O personagem principal é, obviamente, o jovem príncipe Hamlet que recebe a visita do espírito de seu pai recém-falecido que vem lhe contar que foi assinado pelo seu próprio irmão, tio de Hamlet, o qual desposou sua mãe em menos de dois meses do falecimento de seu pai.

Irado pelas revelações da aparição de seu pai, Hamlet resolve criar um plano para desmascarar seu tio. E em seu processo de vingança Hamlet utiliza o artifício da loucura para por em prática o seu plano. Perante todos Hamlet foi tomado pela loucura e por isso seus atos insanos tornam-se aceitáveis por um certo tempo, pois justificam-se pela própria loucura.

Hamlet ora sofre, ora se regozija com sua loucura encenada. E ao mesmo tempo também brinca com a lucidez de todos que estão ao seu redor, como é o caso da personagem Ofélia. Hamlet em sua vingança fantasiada de loucura nega o amor de sua amada Ofélia e em uma outra cena trágica assassina o pai da jovem pensando que estava a matar sei tio.

Ofélia longe do irmão Laertes se vê rejeitada pelo seu grande amor e órfã em vista do assassinato de seu pai. A jovem que estava sendo atormentada a muito tempo pela loucura de Hamlet, por fim cai ela mesma na loucura, mas numa loucura real e corrosiva que a leva a perder totalmente o senso de realidade. Aqui entra um dos grandes paradoxos dessa obra. O quanto a loucura encenada de Hamlet levou Ofélia a cair em sua loucura fatal?

A jovem e bela Ofélia atormentada pela sua loucura é, enfim, levada a afogar-se num rio. Um afogamento acidental ou um suicídio? Essa é uma das mais interessantes discussões nesta obra de Shakespeare. A Rainha ao dar a notícia do falecimento de Ofélia ao seu irmão Laertes diz: "Acumulam-se as desgraças, e repetem-se com assustadora rapidez. Laerte, tua irmã suicidou-se, afogando-se.". Mas na narrativa que se segue a Rainha narra o acontecido e ali podemos notar uma leve atenuação dos fatos.

"Na margem da vizinha ribeira cresce um salgueiro, cuja prateada folhagem se reflete nas águas cristalinas. Tua irmã aproximou-se daquele sitio, sempre tecendo grinaldas de rainúnculos, ortigas, malmequeres, e dessas flores a que os nossos pastores dão um nome bem grosseiro, mas que as nossas castas donzelas denominam poeticamente "dedo da morte". Quando procurava ornar com as suas inocentes grinaldas as argênteas frondes do salgueiro, oh! desgraça! descuidosa foi envolvida na corrente, cercada dos ornatos que lhe serviam como de corôa virginal. Algum tempo suspensa pelas vestes sobre a corrente, assimilhava-se a uma sereia, cantando incoerentes trechos, inconsciente do próprio risco, como se estivesse no seu nativo elemento. Mas tudo tem um fim, e em breve, sossobrando pelo peso das encharcadas vestes, cessou de cantar, e tornou-se cadáver levado pela corrente." Fonte: Peça Hamlet de Shakespeare em Wikisouce

Ophelia by John Everett Millais

A personagem Ofélia é ao mesmo tempo secundária e fundamental à trama. O suicídio era um tema delicado a ser discutido devido a predominação da igreja católica na época, mas Shakespeare através da morte trágica e dúbia da doce e jovem Ofélia cria um espaço para uma discussão crítica porém sutil sobre o tema. Ironicamente, em minha opinião, o simples coveiro que está cavando a cova de Ofélia apresenta para o seu colega o raciocínio mais simples e direto sobre o tema:
"Ouve-me ainda; a água está aqui, o homem está acolá; muito bem, o homem vai encontrar a água e se afoga; forçosamente morre por seu motivo próprio; nota isto bem. Mas se, pelo contrario, é a água que vem encontrar o homem, e ele se afoga, então já não é ele que procura a morte; ergo, aquele que não é culpado na sua morte, não encurtou voluntariamente á vida."

Fora do contexto da obra de Shakespeare a personagem Ofélia foi ainda mais enaltecida, ela se transformou na imagem de uma ninfa das águas caudalosas de um rio rodeado por árvores e flores, uma bela jovem que foge de sua loucura entregando-se a um sono plácido enquanto permanece deitada num berço de águas. Ofélia representa uma alma atormentada que foge de si mesma entregando-se a um sono que a conduz ao esquecimento, a morte.

A seguir apresento um trecho do poema Ophelia de Arthur Rimbaud, considerado um dos mais belos poemas sobre esta personagem Shakespeariana:

Ophelia por Arthur Hughes
Morreste sim, menina que um rio carrega,
Ó pálida Ofélia, tão bela como a neve !
- É que algum vento montanhês da Noruega
Contou que a liberdade é rude, mas é leve;

-É que um sopro, liberta a cabeleira presa,
Em teu espírito estranhos sons fez nascer
E em teu coração logo ouviste a Natureza
No queixume da árvore e do anoitecer.

- É que a voz do mar furioso, tumulto impávido,
Rasgou teu seio de menina, humano e doce;
- E em manhã de abril, certo cavalheiro pálido,
Um belo e pobre louco, aos teus pés ajoelhou-se.

E aí o céu, o amor : - que sonho, que pobre louca !
Ante ele eras a neve, desmaiado à luz;
Visões estrangulavam-se a fala na boca,
O Infinito aterrava os teus olhos azuis !

O quadro de John Everett Millais é uma das mais famosas representações de Ofélia, mas no mesmo período Arthur Hughes, também participante da Irmandade Pré-Rafaelita juntamente com Millais, produziu diversos outros quadros representando suas versões de Ofélia.

Ophelia por Arthur Hughes

Ophelia por Arthur Hughes


Ophelia por Arthur Hughes


Agora vejamos alguns trabalhos fotográficos encontrados na internet sobre a personagem Ofélia. Tais fotos foram colecionadas ao longo de seis meses e muitas delas careciam de fontes, por isso colocarei apenas comentários em algumas delas.

A metáfora de Ofélia no filme Melancholia.

Versão de Ofélia na revista Vogue.

Obviamente, propaganda da Chanel.

Cena da série Desperate Romantics em que Millais pinta o quadro Ophelia.

Ofélia pela fotógrafa Elena Kalis.

Ofélia por Desirée Dolron.

Ofélia pelo fotógrafo Gregory Crewdson.






























Este é o fim, Ofélia foi minha companheira pelos últimos seis meses e agora passo para uma nova fase. Para quem tiver interesse eu ainda tenho muitas outras fotos de Ofélias e, se alguém estiver afim, também podemos trocar algumas ideias sobre o assunto. Levei muito tempo investigando e lendo, e muitas coisas acabaram sendo cortadas, afinal, quanto mais longo o post mais difícil é das pessoas o lerem (triste, mas é verdade), mas mesmo assim conservei algumas coisas na memória. Se quiserem, me escrevam. Até a próxima!

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Fugir da Primavera


Carrego o frio do inverno dentro de mim. Sinto-o como um vento gélido que percorre a minha espinha até eclodir na nuca provocando arrepios por todo o meu corpo. Me abraço forte buscando o calor, mas tudo o que consigo é tremer ainda mais. Procuro por outros braços, mas nenhum abraço me dá calor.

Mãos, braços, tronco, pernas e pés, todos dormentes, o rosto insensível, a boca inerte, tudo adormecido, até o coração está dormente. Sinto-me como as árvores que perdem suas folhas no inverno, contidas dentro de si mesmas. Apenas uma diferença, as árvores suportam o frio que lhes envolvem, eu convivo com o frio que há em mim.

A primavera agora se aproxima, mas tudo o que desejo é fugir dela. Quero me manter contida nesse frio que me petrifica, quero manter meu coração dormente. Enquanto dormente ele nada sente, o amor que o deixou em cacos agora dorme eternamente. Eu fujo da primavera, eu fujo do meu despertar.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

There is always hope

 
- Então não o ama mais?
- Amo. Só guardei isso num cofre. E tranquei. E esqueci a senha. Não porque quis, foi preciso.
(Caio Fernando Abreu)

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Chorar ou não, eis a questão.

Instruções para chorar
Histórias de Cronópios e de Famas
Julio Cortázar 
 
Deixando de lado os motivos, atenhamo-nos à maneira correta de chorar, entendendo por isto um choro que não penetre no escândalo, que não insulte o sorriso com sua semelhança desajeitada e paralela. O choro médio ou comum consiste numa contração geral do rosto e um som espasmódico acompanhado de lágrimas e muco, este no fim, pois o choro acaba no momento em que a gente se assoa energicamente.
***
Para chorar, dirija a imaginação a você mesmo, e se isto lhe for impossível por ter adquirido o hábito de acreditar no mundo exterior, pense num pato coberto de formigas e nesses golfos do estreito de Magalhães nos quais não entra ninguém, nunca. Quando o choro chegar, você cobrirá o rosto com delicadeza, usando ambas as mãos com a palma para dentro. As crianças chorarão esfregando a manga do casaco na cara, e de preferência num canto do quarto. Duração média do choro, três minutos.

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I don't weep, do you?


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Weep

Weep from Vinoth Varatharajan on Vimeo.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Preciosidades

Me sinto inútil por não poder escrever. Essas poucas palavras já me causam dor. Tenho uma dor física, aquela do corpo que falha devido ao cansaço, e uma dor interna, aquela dor que nem Clarice Lispector soube explicar: 

"- Porque você me pede tanta aspirina?
- É para eu não me doer.
-Como é que é? Hein? Você se dói?
- Eu me dôo o tempo todo.
- Aonde?
- Dentro, não sei explicar." 

A hora da Estrela, Clarice Lispector.

Assim, meu único consolo é buscar nas palavras de outros o bálsamo que minha mente tanto necessita.

Entre o fogo e a derme

Como quem sopra
a própria pele antes
para você queimar
melhor, mais
eficaz. Com você,
os pontos da sutura
são auxílio ao corte.
Deito e observo
o prazer com que
você me desinfecta
para proteger,
contra minha tez,
os seus insetos.
Eis-me aqui,
querido, todo pós-
utópico depois
que você confunde
pela centésima vez
sulco e charrua
durante o sexo
ou seu exagero
em buscar no dicionário
antes de me tocar
a etimologia de palavras
como amortecimento.
Quando você fala,
arreganho os ouvidos
e olvidos e Ovídios
e respondo
à attention span
de peixe dourado
que você me dedica
em nossa vida de aquário.
Sei que devo soar,
aos seus ouvidos,
como um conjunto
de erratas e spam.
Resigno-me
como inseto extinto
preso em sua resina.
Os amigos sugerem
que eu deixe o cronômetro
vir coser os lábios
da ferida, enquanto
você seleciona
em random mode
por trilha-sonora
o sonzim dos meus ossos
que engranzam
sob o seu corpo.
Silêncio não
é costureira,
nem na Espanha
onde talvez haja
alguma que atenda
por Martírio ou Remédios,
como numa peça qualquer
de Lorca ou outra louca.
Sinto-me como uma Orca
justiceira ou uma Scarlett O´Hara
sem Tara.
Resta-me a esperança
que arqueólogos futuros
me descubram, soterrado,
fossilizado, esquecido
sob as suas vírgulas.
Hei de voltar, como um vírus
trancafiado nas tumbas
de Tutancâmon ou outra múmia,
devastarei paisagens e populações
à procura dos seus pulmões.


Ricardo Domeneck. Publicado originalmente na página mensal de poesia contemporânea do caderno Prosa & Verso, do jornal O Globo, a 15 de janeiro de 2011.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Le mystère du sourire

Uma vida circunscrita. Eu li isso num livro dia desses, num desses dias, num dia em que eu aleatoriamente expandia o raio da minha vida. Raio de vida! Lá estava eu sentada numa confortável poltrona, num paraíso refrigerado, rodeada de livros e boa música, ou seja, eu me encontrava numa livraria. Eu diria, A Livraria. Gosto dela porque lá ninguém me conhece e não sou obrigada a fazer cara de feliz, aliás, somente nesse lugar posso manter minha cara taciturna com o pretexto de que estou (literalmente) com o nariz enfiado num livro. Sorrir é bom, mas em demasia faz a cara doer, já reparou nisso? Por isso gosto da taciturnidade, ta-ci-tur-ni-da-de, palavra curiosa. Todos veem isso como algo triste e solitário, o que na verdade o é, mas o que ninguém pensa é que na maior parte do tempo portamos essa máscara, pois não há escolha. Olhe para as pessoas no dia a dia, por acaso elas sorriem o tempo todo? Não, todas elas parecem taciturnas, e muitas vezes não o são, mas sorrir é especial, e por isso é preciso resguardar os sorrisos.

Pode uma vida vir a ser tão circunscrita a ponto de não valer mais a pena ser vivida? Outra coisa que li no mesmo livro, nesse dia, no dia em que eu me encontrava na livraria. Eu pensava que a minha vida era ridiculamente circunscrita, pois o meu universo havia se contraído ao meu apartamento e algumas ruas ao redor dele. Raio de vida! Vida pequena, vida vazia, vida apressada, vida estressada. Mas não nesse dia, nesse dia, eu expandia o raio da minha vida, ensaiava um pequeno experimento. Cara taciturna, olhos no livro, música a toda nos fones de ouvido e pensamentos voando soltos. Nada de diferente, eu expandia o espaço da minha vida, não sua substância, apenas queria estar num lugar "estrangeiro" pra mim. Mas então, de repente, não mais que de repente, num milésimo de segundo de um instante brevíssimo, num piscar de olhos desviados da página do livro, então, eu vi um sorriso. A cara, antes taciturna, agora esboçava um grande ponto de interrogação. Curiosidade. Ela matou o gato, e provavelmente muito mais gente, e por que não eu? 

O silêncio é tão terrível quanto aquele peso que não nos deixa fugir, nos sonhos. Essa eu li num outro livro, nesse dia, no dia em que eu me surpreendi na livraria. Um sorriso surpresa. Estou sonhando ou estou desperta? A cara trepidava entre ser taciturna e alegre, por vezes deixei escapar um sorriso também, mas o que não consegui conter foram os olhos. Ah, esse olhos! Eles, os olhos, brilhavam de curiosidade. Eu digo isso porque os vi refletidos num espelho. Aquela cara embriagada, os olhos brilhando, o sorriso trepidante e a curiosidade, tudo isso me fez tomar um susto quando vi a imagem refletida. Quem é essa moça ali no espelho?! Putain, c'est moi! Então, de repente, não mais que de repente, o universo se expandiu com uma nova ideia, uma curiosidade, com o mistério do sorriso. No entanto, a expansão foi além do espaço, algo dentro do meu peito também se expandia, como uma onda borbulhante que me inundava.

O erro das pessoas é tentar entender as outras em vez de senti-las. Essa eu li nos escritos de um amigo, dias depois, dias depois daquele dia na livraria. Não pretendo narrar as desventuras da tentativa de desvendar o mistério do sorriso, pois o mistério permanece, e assim permanecerá. Leia o escrito do amigo e quem sabe entenderá o porquê. Ou não. Afinal, tentar entender é o erro. O que importa, o que mais importa, é que a vida continua circunscrita, mas com novas dimensões. Meu novo universo me permite sentir, mesmo sem entender, e eu não preciso entender. Agora, a cara é sonhadora, mas não pede nada. Os olhos, eles contemplam, mas não pedem nada. O sorriso, ele é oferecido, mas não pede para ser retribuído. Fico feliz de poder observar meu novo universo, apenas poder ver passar o mistério do sorriso. 

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Brevidade no. 1

"...o silêncio é tão terrível quanto aquele peso que não nos deixa fugir, nos sonhos."

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Fragmentos

        "... já que sou, o jeito é ser.
        Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta, continuarei a escrever. (...) Pensar é um ato. Sentir é um fato.
        Estou fruindo o que existe. Calada, aérea, no meu grande sonho. Como nada entendo - então adiro à vacilante realidade móvel. O real eu atinjo através do sonho."

Trecho de A Hora da Estrela de Clarice Lispector

***

"Se não há coragem, que não se entre. Que se espere o resto da escuridão diante do silêncio, só os pés molhados pela espuma de algo que se espraia de dentro de nós. Que se espere. Um insolúvel pelo outro. Um ao lado do outro, duas coisas que não se vêem na escuridão. Que se espere. Não o fim do silêncio, mas o auxílio bendito de um terceiro elemento, a luz da aurora."

Trecho de Onde estivestes de noite de Clarice Lispector

***

"Querida, não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso - nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro. Nem sei como lhe explicar minha alma. Mas o que eu queria dizer é que a gente é muito preciosa, e que é somente até um certo ponto que a gente pode desistir de si própria e se dar aos outros e às circunstâncias." 

Trecho de uma carta de Clarice Lispector a uma amiga

domingo, 3 de outubro de 2010

Imperfection

Ela não era infinitamente bela, mas possuía uma beleza incomum, que era só dela. Durante toda a noite ela pouco disse, parecia perdida em devaneios. Seu olhar era desinteressado, mas cortês. Nada nela era particularmente atraente, mas ao mesmo tempo era impossível deixar de percebê-la. Ela se beneficiava de uma solidão perfeita que só a presença de uma multidão pode proporcionar. Ela era um enigma. 

Ele fixou o olhar no rosto dela. Começou a pensar sobre quem era ela. Ficou curioso sobre o que a fazia pensar tanto. Ela estaria triste eu simplesmente era indiferente? Tudo o que ela deixou de falar os seus olhos pareciam se encarregar de dizer. Ele teve certeza que não era tristeza, e muito menos indiferença, ela estava intrigada. Então, ele percebeu que os olhos dela sustentavam os dele. 

Ela se levantou e começou a caminhar na direção em que ele se encontrava. Os mínimos gestos dela eram cheios de poesia contida. Ele mal podia respirar ao vê-la se aproximar. Eram tantos os pensamentos em sua mente que no fim ele não conseguia focar em nenhum deles. Ela parou a alguns passos dele, e sorriu. Naquele instante tudo parecia perfeito. Sobre a superfície, tudo nela era perfeito. Tão perfeito que ele teve medo de se aproximar mais. A perfeição assusta!


quinta-feira, 30 de setembro de 2010

"Run mad as often as you choose but do not faint."

Sabe de uma coisa, não é fácil! Hoje quando acordei ao abrir os olhos senti como se 100 agulhas estivessem sendo espetadas no meu cérebro, nada de especial nisso, era apenas a famosa enxaqueca. Ela é minha velha companheira, mas o que me intriga é o catalizador dela. A noite não foi das melhores, insônia seguida de um sono perturbado por sonhos à la Irreversible.  Como costumo dizer, "Dormi mal pacas! Tive uma sonharada..." Why God?!? Why?!? Igorância é uma bênção! Irônico que nos últimos dias eu me sentia dona de mim, eu estava feliz e segura, tão bem que até causou estranheza pois ouvi um "Você está diferente...". Tudo que é bom dura pouco, e o que durou pouco foi a minha paz, consegui ficar um tempo no paraíso do esquecimento, mas do nada um sonho desencavou as imundices do meu subconsciente. Me recordo de acordar de madrugada e dizer What a fu#$*! Eu tentei num ato de pura disciplina e concentração não pensar, mas não posso confiar mais em mim mesma. Por um tempo até deu certo, mas pelo visto é impossível deixar de sentir, por isso a única solução é não lutar mais, nem contra nem a favor, ou whatever works.

domingo, 26 de setembro de 2010

Na página 400

"A única fonte de consolo que possuía era a resolução de melhorar sua conduta e a esperança de que, por mais inferior em companhia e alegria que fossem o inverno seguinte e todos os outros, ainda assim esses invernos a encontrariam mais racional, mais consciente de si mesma e deixariam menos tristeza ao irem embora."
Estava lá na página 400 do livro, e foi impossível não sorrir. Na incapacidade de me expressar encontrei lá na página 400 do livro a expressão exata daquilo que estou sentindo. A exatamente um ano atrás eu não podia imaginar que a Renata de hoje se conheceria tanto a mais que naquela época. É engraçado como penso de mim mesma no passado com uma outra pessoa, porque hoje sou uma pessoa muito distante daquela. Eu não mudei, people don't change, hoje eu sou a mesma de antes mas numa versão distorcida da anterior. Jamais podemos mudar quem somos de fato, algumas manias e vícios podem se perder no decorrer da vida, mas a essência de quem somos jamais será transformada.

Aquilo que nos define é indefinível, impossível de ser descrito, eu apenas sei que seja lá o que for isso somente pode ser sutilmente percebido (por nós mesmos) naquilo que nos conduz a agir da maneira que agimos. Não digo somente nas ações, mas naquilo que te impulsiona a olhar nos olhos de alguém e dizer "pode se sentar comigo" sem que você tenha compreendido por quê o fez. Por que fiz isso? Eu não sei, eu só sei que fiz porque naquela hora parecia que era o que deveria ser feito. A situação em si não tem tanta importância, eu só a utilizei para ilustrar a minha própria surpresa quando disse a frase sem ao menos compreender o porquê daquela ação. Sempre existe aquele instante que nos surpreendemos pela maneira que agimos, seja nos pequenos gestos ou em situações de urgência.

Já que não podemos mudar quem somos, podemos ao menos tentar fazer algumas coisas de modo diferente. Se depois de um tempo isso soar natural, isso significa que somos capazes de nos moldar um pouquinho. Eu posso tentar não arrumar a cama toda manhã, mas sempre acabo a arrumando sem perceber num dia ou outro. Da mesma forma posso passar a preparar o café de outra forma e perceber que nunca mais pensei em fazê-lo de outro jeito. Algumas coisas mudam, outras não e algumas mudam de vez em quando. Eu só sei que faz bem se perguntar o porquê das coisas as vezes, mas só faz bem de vez em quando, caso contrário perde a graça. Não seríamos únicos se todos fossemos como livros abertos, com índice, prólogo e considerações finais, a beleza está no mistério que cada um guarda em si mesmo.

O inverno se foi e as tristezas são menores do que aquelas do último inverno. Muito mudou, eu continuo a mesma, mas diferente. O que mais sinto de diferente é a alegria de me sentir mais inteira. Hoje eu me sinto muito mais eu mesma por mais paradoxal que isso possa ser. Sou a mesma pessoa do ano passado, mas sou mais eu mesma hoje. A primavera recomeça com um novo olhar para o mundo, e principalmente um novo olhar de mim mesma.

Spring Sun by Diana Hertz

domingo, 12 de setembro de 2010

Tic tac

O que dizer sobre o tempo? [clichê mode on] Só o tempo dirá. [clichê mode off] (In)felizmente, isso é verdade. Quando não sabemos mais o que fazer só nos resta esperar que o tempo passe. Quem nunca sentiu o tempo fugir quando estamos nos divertindo, ou durar uma eternidade quando fazemos algo de que não gostamos. [clichê mode on] O tempo passa, o tempo voa. [clichê mode off] Ao mesmo tempo, ele... o tal, nos domina. Ele rege nossa vida desde o instante de acordar até o momento de dormir. Mesmo os mais espertos que vivem sem olhar para o relógio e acordam na hora que querem, comem na hora que sentem fome e vivem no ritmo da vontade, mesmo eles são pegos pelo tempo. Pois o tempo passa independentemente da nossa vontade. As vezes queremos que passe, as vezes queremos ganhá-lo. Será que vai dar tempo? Dizem também que tempo é dinheiro, obviamente que somente o é para aqueles que são escravos dele, mas essa é só a minha humilde (ou ignorante) opinião. Há que diga também que tudo é uma questão de "gerenciar o tempo". O engraçado nisso tudo é que o tempo não é de ninguém e é de graça, mas está sempre nos faltando tempo. Falta tempo pra escrever, falta tempo pra comer, falta tempo dormir, falta tempo pra amar, falta tempo pra viver. Falta tempo. Por que sempre precisamos sacrificar alguma coisa pelo tempo? Me dá um tempo! Nessas horas tudo o que eu queria era matar o Tempo, assim eu podia ficar só matando tempo. Todo mundo algum dia já lamentou por te perdido tempo com alguma coisa. Tempo inútil. Com a mesma intensidade todo mundo também já desejou poder fazer algo com mais tempo... Mas como sempre, não podemos exigir demais, tudo a seu tempo. E agora eu pergunto: O que você faria se tivesse mais tempo?