quarta-feira, 27 de abril de 2011

Série Ecos - No.10 - Meu Eco

IDENTIDADE
Ecos, ecos, ecos, ecos
caóticos reverberando
pelas paredes sombrias
de um quarto obscurecido
souvenir, uma lembrança?
uma memória imemorável

Dois braços estendidos
a espera de um corpo
que preencha o seu vazio
que a possua, que a tome
que lhe dê uma vida, alma
alma pura, uma vida nova

Olhos cerrados esperam
o nevoeiro denso, véu negro
o medo da imprevisível face
de um sonho ou pesadelo
a eterna incerteza, dúvida

Soma de todos os males,
todas as dores e enganos
de uma efêmera existência
de desejo, volúpia, vício,
ânsia desmedida de amar
sem medo e consequência
 Renata Leandro Becker
Rio de Janeiro, Abril de 2011
Nu reclinado por Amadeo Modigliani em 1919


segunda-feira, 25 de abril de 2011

Viagem no tempo

Um cheiro. Passei por uma calçada e um cheiro me atingiu em cheio. Considerando que estou no Rio de Janeiro isso poderia ter sido algo terrível, mas não foi. Foi um perfume, o perfume de um flor tímida num arbusto raquítico no meio de uma calçada. Um pequeno jardim artificial em meio a bagunça urbana. Jasmim ou Camélia? Eu não sei. Prefiro camélia, a Dama das Camélias, quanto sofrimento... E lá estava ela, pequenina, ainda desabrochando. Parei, fiquei na ponta dos pés e inspirei o ar que a cercava, aroma divino. Lembrei de tantas outras camélias que cheirei, de todos os momentos e de todas as pessoas. As lágrimas chegaram e segui o meu caminho. Já sinto saudades dela, da camélia. E do perfume que me faz viajar no tempo.


Série Ecos - No.9 - Ecoando Drummond

BRINDE NO BANQUETE DAS MUSAS

Poesia, marulho e náusea,
poesia, canção suicida,
poesia, que recomeças
de outro mundo, noutra vida.

Deixaste-nos mais famintos,
poesia, comida estranha,
se nenhum pão te equivale:
a mosca deglute a aranha.

Poesia, sobre os princípios
e os vagos dons do universo:
em teu regaço incestuoso,
o belo câncer do verso.

Azul, em chama, o telúrio
reintegra a essência do poeta,
e o que é perdido se salva...
Poesia, morte secreta.

Carlos Drummond de Andrade, José & Outros
Editora Record

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Série Ecos - No.8 - Ecoando Charles Baudelaire

A SERPENTE QUE DANÇA

Que eu te amo ver, lânguida amante,
    Do corpo que excele
Como um tecido vacilante,
    Transluzir a pele!

Sobre o teu cabelo profundo
     De acre, perfumado,
mar odorante e vagabundo,
     Moreno e azulado,

Como um navio que desponta,
     Ao vento matutino
Em sonho minha alma se apronta,
     Para um céu sem destino.

Nos teus olhos ninguém lobriga
     Doçura ou martírio,
São jóias frias que são liga
     De ouro e letargírio.

Ao ver teu corpo que balança,
     Bela de exaustão,
Dir-se-ia serpente que dança
     Em torno de um bastão.

Todos os ócios com certeza
     Tua fronte movem
Que passeia com a moleza
     De elefante jovem,

E o teu corpo se alonga e pende
     Tal nave se mágoas,
Que as margens deixa e após estende
     Suas vergas na água.

Onda crescida da fusão
     De gelos frementes
Se a água de tua boca então
     Alcança os teus dentes,

Bebo uma taça rubra e cheia
     Muita amarga e calma,
Um líquido céu que semeia
     Astros em minha alma!

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Sobre montanhas e precipícios

Quando tristes, solitários, desesperados e por vezes suicidas, o que mais queremos é alguém que nos salve. Alguém que surja do nada, e que estenda o braço e nos tire do fundo desse precipício. Mas essa pessoa não vem, ela não existe. Mesmo assim aparecem outras pessoas, algumas delas ficam te olhando lá de cima e tentam de alguma maneira gritar coisas felizes para que você consiga se reerguer, mas o precipício é muito fundo, a felicidade se perde no ar. Existem aquelas pessoas que também estão lá no fundo com você, e elas são as únicas que te entendem. Por vezes, nós aqui no fundo ficamos de mãos dadas e isso gera algum conforto, pelo menos não estou só, pelo menos... até o instante em que segurar a mão do outro só vai te empurrar mais pra baixo. Então, soltamos as mãos e evitamos o mal, fazê-lo e sofrê-lo, evitar escorregar mais para o fundo. Eu fico em silêncio. Eu me escondo quando sei que não querem ver minhas lágrimas. Mas então, chega o dia em que a luz do sol inunda o fundo do precipício, e nesse dia uma força se apodera de mim e eu começo a escalar. Escalo, caminho e corro em direção ao topo da montanha. Eu grito, eu sorrio, eu gargalho, eu declamo poesias de amor... E todos pelo caminho querem segurar a minha mão, todos querem compartilhar desse momento e todos querem um pouco da minha força para subir até o topo da montanha. O meu erro é querer que também sejam felizes, porque cansa segurar aquelas mãos, mas mesmo assim eu as seguro. Em pouco tempo a minha força se esvai, não consigo manter os sorrisos, o meu e os deles. Sou fuzilada por olhos severos, olhos que não compreendem que me falta força e que eu vivo entre o fundo do precipício e o topo da montanha. Todos os meus dias.

No More Will de Augusto Peixoto