terça-feira, 13 de setembro de 2011

Poesia passageira - No.5

Farol Obscuro

pesadelos desejos sonhos medos
sombrias vielas caminho obscuro
noite infinita pura agonia êxtase
transpir(ação) arfante respiração
água rosto mãos pescoço espelho
cama vazia mulher calmo sorriso
vontade satis(feita) retornar rua
passos bambos ziguezagues ruas
tropeços calçada rodopios tombo
chão dor viscosa manto estrelado
(a)calma sanguinolenta sonolenta
pensar sorriso alegria verdadeira
felicidade sonhar desejar morrer
noite desejo morte todos unidos
instante decisão dúvida reflexão
luz alvorecer início fim escuridão
ver azul manhã vermelho sangue
levantar caminhar comer dormir
acordar andar ritmo humanidade
esperar noitecer promessa sonho
esquecer pesadelos perder medos
buscar mais sonhos mais desejos
felicidade rebento incandescente
pretender pequeninas felicidades
efêmeras obscuridades noturnas
capturar repetidamente assimilar
escuro felicidade luz farol direção



domingo, 11 de setembro de 2011

Poesia passageira - No.4

Minha Sina

Meu desejo, eu desejo
dar-te algo muito além
aquém da vil aparência
só minha pura essência
........Suplico com todo meu
........ardor, toda minha alma
........clama, chama e inflama
........abra teus olhos, e veja
Meu corpo inominável
apenas um receptáculo 
minha efêmera morada
desvelada me revelará
........Sinta mais que a carne
........eu peço, eu te imploro
........sinta o invisível, etéreo
........o meu ser, meu eu, eu
Me entrego por inteiro
corpo, alma e meu ser
tudo em tuas mãos, e
espero pelo despertar
........Sempre espero, doce
........despertar, a revelação
........mas sempre esperarei
.......outrossim a desilusão.


quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Poesia passageira - No.3

[tique][taque]ando...

tomo
pílulas
como
balas
tic tac

tic tac
tic tac
tic tac
tic tac
tic tac

noturna
desabo
encaro
abismos
escuros

tic tac
agora
tempo
tic tac
tic tac

diurna
acordo
mórfica
rastejo
perene

tic tac
agora
átimo
tic tac
tic tac

tomo
pílulas
como
balas
tic tac

tic tac
tic tac
tic tac
tic tac
tic tac

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Fugir da Primavera


Carrego o frio do inverno dentro de mim. Sinto-o como um vento gélido que percorre a minha espinha até eclodir na nuca provocando arrepios por todo o meu corpo. Me abraço forte buscando o calor, mas tudo o que consigo é tremer ainda mais. Procuro por outros braços, mas nenhum abraço me dá calor.

Mãos, braços, tronco, pernas e pés, todos dormentes, o rosto insensível, a boca inerte, tudo adormecido, até o coração está dormente. Sinto-me como as árvores que perdem suas folhas no inverno, contidas dentro de si mesmas. Apenas uma diferença, as árvores suportam o frio que lhes envolvem, eu convivo com o frio que há em mim.

A primavera agora se aproxima, mas tudo o que desejo é fugir dela. Quero me manter contida nesse frio que me petrifica, quero manter meu coração dormente. Enquanto dormente ele nada sente, o amor que o deixou em cacos agora dorme eternamente. Eu fujo da primavera, eu fujo do meu despertar.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Poesia passageira - No.2

6/9

tesão por sexo
sexo por tesão
tesão por si só

o sexo é um movimento
simples ação incessante
ato friamente mecânico?

carência por sexo
sexo por carência
carência por si só

o sexo é uma conexão
entre nossos sentidos
ou serão sentimentos?

sexo por paixão
paixão por sexo
sexo  por  si  só

a paixão é inflamada
queima até extinguir
o amor ou sanidade?


sábado, 3 de setembro de 2011

O que é sentimento?

Sentimento (Do lat. sentimentum) s.m. 1. ato ou efeito de sentir(-se) 2. aptidão para sentir; disposição para se comover ou se impressionar; sensibilidade. 3. faculdade de conhecer, perceber, apreciar; noção, senso. 4. atitude mental ou moral caracterizada pelo estado afetivo. 5. disposição emocional complexa da pessoa, predominantemente inata e afetiva, com referência a um dado objeto (outra pessoa, coisa ou idéia abstrata), a qual converte esse objeto naquilo que é para a pessoa; afeto, afeição, amor. 6. expressão viva, animada; entusiasmo, emoção. 7. experiência afetiva de desprazer; pesar, tristeza, mágoa 8. percepção íntima; conhecimento imediato; intuição, pressentimento.

"Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador. Escrever é também abençoar uma vida que não foi abençoada."
Clarice Lispector

Uma vez escrevi: "Meu nome é Angústia". Naquela época me nomeei Angústia sem razão alguma, sem pensar a respeito, apenas senti que a palavra soou bem aos meus ouvidos e que ao escrevê-la parecia que aquilo fazia sentido, mesmo que eu não compreendesse o porquê. Eu sentia algo dentro de mim, algo oculto e ameaçador.

Sempre fiquei confusa com relação a alguns dos meus sentimentos e atitudes. As vezes eu me sentia como uma marionete controlada por mãos misteriosas. Outras vezes eu me mexia, falava e pensava como devia, mas o que eu sentia não correspondia aquilo que eu mostrava do lado de fora. Eu me sentia traída por mim mesma.

Entre ser manipulada e traída, eu acabei completamente perdida e como consequência machuquei muitas pessoas ao meu redor, principalmente a mim mesma. Chequei a me considerar nociva aos outros. Eu não compreendia o que eu sentia, eu não conseguia compreender o que os outros sentiam, eu não sabia quem eu era.

Quando chequei ao meu limite, enfim, perdi completamente minha identidade. Foi neste ponto da minha vida que embarquei numa busca insana pela resposta da pergunta: Quem sou eu?. E essa busca me conduziu a um lugar que fica à beira da insanidade. Pensar enlouquece. E de tanto pensar descobri o que estava oculto em mim.

Angústia, essa palavra quer dizer muitas coisas, mas quando eu a disse há algum tempo atrás, sem ter a menor consciência, algo dentro de mim gritava que eu estava com medo. Eu demorei a ouvir esse grito, mas quando eu o ouvi já era tarde demais. Eu fui atropelada por algo que estava muito além das minhas forças. A mim mesma, a insanidade.

Como todo ser humano eu sou imperfeita e capaz de fazer todo e qualquer mal. Sou inacabada e consciente do meu inacabamento. Eu pensava ser como todos os outros, mas não sou. Não sou nem mais, nem menos, mas sou diferente de uma forma não trivial. Com a minha insanidade eu desvendei o maior enigma da minha vida.

Fiquei insana. E depois fiquei doente, com dores, com o corpo machucado, depressiva, perturbada, suicida, dopada, confusa, histérica, apática, drogada. Precisei de oito meses infernais para descobrir a resposta do enigma, uma simples palavra que define a minha vida de sintomas. Essa palavra não justifica nada, apenas esclarece.

Ser depressivo era considerado romântico, poético. Hoje é o mal do século, afinal de contas, todo mundo tem ou conhece alguém que tem. O Stress é como um espirro, você pode ter todo dia. Tudo hoje é banal, e é por isso que eu acho que estamos cada vez mais doentes, algo dentro de nós grita contra a banalidade do mundo.

Meu nome é Renata Leandro Becker, não mais Angústia. Sou Bipolar e ainda não entendi completamente o que é isso. Ainda tenho um pouco de medo e sou muito incrédula, mas hoje acredito que as coisas podem dar certo. Afinal de contas, eu consegui pensar claramente e escrever este texto. Eu consegui sair da cama hoje pela manhã e encarei o mundo lá fora. Ainda não é fácil, mas a vida nunca é fácil.