Um dia para esquecer. Só um dia para esquecer. Um dia, apenas. Eu vou acordar e esquecer, um dia. O reflexo no espelho ainda é meu, eu ainda não esqueci. Não, eu apenas comecei a esquecer. Sair da cama. Lavar o rosto, o meu rosto, o que ainda é meu. Eu coloco a roupa e saio para a rua. Eu caminho, caminho, caminho e caminho até me perder, mas eu ainda lembro... Eu sinto... dor. Os meus pés doem, eu me esqueci de colocar os sapatos, eu esqueci. Onde? Eu não sei mais onde estou. Não, eu me lembrei! Vire à esquerda, sempre à esquerda! Eu caminho, caminho, caminho e caminho até chegar no fim... do caminho? O fim? Moço, aonde fica o fim? É aqui que acaba? É aqui onde tudo acaba? O meus pés, eles doem e sangram. Sim, uma mistura de piche e sangue. Eu sento numa calçada, não na sarjeta. Nunca na sarjeta! Na calçada eu balanço as minhas pernas e olho para os meus dedos dos pés... Escravos de Jó jogavam caxangá. Tira, bota, deixa o Zé Pereira ficar... Eu me lembro disso, eu ainda me lembro. Eu ainda me lembro de muita coisa. Deitei. Na calçada, nunca na sarjeta! Eu olho para o alto e vejo o azul do céu por entre os galhos de um Flamboyant. Vermelho, não amarelo. Vermelho! Eu estico os meus braços em direção ao céu, eu quero tocar o azul do céu, eu subo na árvore, eu me estico até o último galho, bem lá no alto eu estico o corpo todo, a mão, os dedos... eu fecho os olhos e agarro o céu! Eu me esqueci... ou me lembrei... de como se faz para agarrar o céu. É assim que se esquece, a gente lembra de coisas novas e as velhas a gente esquece, sem querer. Sempre sem querer, porque não se esquece quando se quer esquecer, nunca. Vermelho. Eu sei que ainda lembro, mas agora tudo é vermelho, por isso eu esqueço. De tudo eu me esqueço. Na calçada, nunca na sarjeta!
sexta-feira, 20 de abril de 2012
domingo, 8 de abril de 2012
Uma definição que de tão simples ficou complexa
amor?
Uma vez foi dito que o amor é dar à alguém a habilidade de te destruir mas confiar que ele não o fará.
confiar?
quarta-feira, 4 de abril de 2012
Um fim de tarde com Persuasão
Toda vez que leio a carta do Capitão Frederick Wentworth endereçada a Anne Elliot, ambos personagens do romance Persuasão de Jane Austen, eu me rendo a uma melancolia cheia de suspiros. E se, quem sabe talvez algum dia, eu recebesse uma carta assim? Eu me questiono toda vez, talvez até mesmo, todo dia.

"Não posso mais ouvir em silêncio. Preciso falar com você pelos meios de que disponho neste momento. Você fendeu minha alma. Sou metade agonia, metade esperança. Não me diga que é tarde demais, que sentimentos tão preciosos foram-se para sempre. Ofereço-me para você de novo com um coração muito mais seu do que quando você quase o despedaçou há oito anos e meio atrás. Não se atreva a dizer que o homem esquece mais rápido do que a mulher, que seu amor morre mais cedo. Eu tenho amado somente você, mais ninguém. Injusto posso ter sido, fraco e ressentido também, mas nunca inconstante. Você, apenas você trouxe-me para Bath. Faço planos pensando somente em você. Você ainda não percebeu? Terá você falhado em entender meus desejos? Eu não teria esperado nem estes dez dias se tivesse podido ler seus sentimentos como eu penso que você penetrou nos meus. Quase não posso escrever. A todo instante ouço alguma coisa que me atordoa. Você abaixa sua voz, mas eu posso distinguir seus tons mesmo quando perdidos em meio aos outros. Boníssima e excelente criatura! Você nos faz justiça, deveras. Você crê que há afeto verdadeiro e constância entre os homens. Creia “nisto” mais fervoroso e constante em F.W.
Devo partir – incerto de minha sorte –, mas voltarei aqui ou irei para sua festa, assim que possível. Uma palavra, um olhar, será o suficiente para que eu decida entrar na casa de seu pai esta noite, ou nunca."
segunda-feira, 2 de abril de 2012
É ou não é?
É a vida!
E como não seria?
Salvo a morte,
o que mais não é?
Nada, tudo é vida.
A vida, eterna
consternação só
de quem a vive.
quinta-feira, 29 de março de 2012
A crença em "alguma coisa"
Eu tenho uma história para contar. Um dia desses um senhor com semblante muito calmo e fala mansa me disse o seguinte:
- A plenitude que todos nós buscamos não está na posse de bens materiais, obviamente, todo mundo sabe disso. Ela também não está somente na nossa realização profissional, por isso muita gente chega ao fim da vida lamentado ter se doado mais ao trabalho do que à sua família ou ao seu bem estar. Na verdade, nem mesmo a conquista do que qualificamos como desejos ou sonhos é uma fonte de plenitude. A plenitude é muito mais do que tudo isso.
Naquele instante eu comecei a me sentir perdida e perguntei:
- Estamos falando de felicidade, certo? Eu cultivo a minha nos pequenos prazeres da vida, nas felicidades do dia a dia. Mas parece que isso não é suficiente, aonde mais posso buscar isso?
Daí o Sr. Plenitude me deu um sorriso de desdém e se recostou na cadeira com as mãos cruzadas na nuca. Eu me senti estúpida, como se eu tivesse falado algo muito bobo, e antes que eu me debulhasse em lágrimas, ele me disse:
- Cultivar pequenas felicidades não vai te conferir uma felicidade completa, muito menos um pouquinho de plenitude. Essa ideia das pequenas felicidades foi difundida para que as pessoas obtivessem felicidade fácil e rápida, pois vivemos no mundo das coisas efêmeras, um mundo sem tempo de "sobra". É por isso que ninguém está contente com a vida hoje em dia, a única felicidade que eles conhecem é aquela que está ao alcance das mãos, e na maioria das vezes a felicidade é um ato solitário, egoísta. E como você mesma constatou, isso não é suficiente.
- Eu confesso que me sinto mais perdida agora do que antes, quando eu entrei por aquela porta.
- Isso ó normal.
- Você gosta muito dessa frase. - "Isso é normal." - Pode ser normal, mas eu ainda não sei o que eu preciso, não sei se é felicidade, ou o que seria a felicidade, afinal, a minha teoria acabou de escorrer pelo ralo! Plenitude, o que é isso?!?! Se tudo o que eu conhecia por felicidade não é felicidade, então o que é essa tal de felicidade?!?!
- Se ela não é isso tudo que você conhece, então ela deve ser algo além. Algo que você precisa acreditar sem ver ou alcançar com a mão. Talvez algo que esteja relacionado a uma, dua, três ou mais pessoas. Pode ser crer em Deus. E se não em Deus, então que seja em outra coisa. Ou ter esperança, como você preferir. Mas, de uma forma ou de outra, você precisa acreditar em alguma coisa.
Com novas dúvidas na cabeça eu saí do consultório e segui em direção ao metrô. Pensei que tentar crer em Deus só para ver se encontro a tal plenitude seria uma senhora hipocrisia, por isso, eliminei Deus da história. Também eliminei o "outra coisa", isso é vago demais, poderia ser qualquer religião, culto, etc. Ficou a esperança e o "alguma coisa". Estes dois últimos são equivalentes para mim, logo, vamos nomear o meu objetivo de busca e compreensão de Esperança. Amem!
quarta-feira, 14 de março de 2012
O π tem dia?
Sim, o número π tem um dia só dele. E como eu não consigo renegar o lado matemático que há em mim, assim como o meu lado poético, eu preparei uma pequena homenagem usando as palavras da escritora polonesa Wislawa Szymborska. Há pouco tempo descobri os escritos dessa notável escritora ganhadora no prêmio Nobel de Literatura de 1996, lamentavelmente por causa do seu falecimento no início do mês de fevereiro deste ano, mas mesmo assim, a mais breve leitura de seus pouquíssimos poemas traduzidos incitou um grande fascínio por sua obra. O poema Pi é apenas uma pequena amostra, espero que gostem.
PI
O admirável número pi
três vírgula um quatro um.
Todos os dígitos seguintes são apenas o começo,
cinco nove dois porque ele nunca termina.
Não se pode capturá-lo seis cinco três cinco com um olhar,
oito nove com o cálculo,
sete nove ou com a imaginação,
nem mesmo três dois três oito comparando-o de brincadeira
quatro seis com qualquer outra coisa
dois seis quatro três deste mundo.
A cobra mais comprida do planeta se estende por alguns metros e acaba.
Também são assim, embora mais longas, as serpentes das fábulas.
O cortejo de algarismos do número pi
alcança o final da página e não se detém.
Avança, percorre a mesa, o ar, marcha
sobre o muro, uma folha, um ninho de pássaro, nuvens, e chega ao céu,
até perder-se na insondável imensidão.
A cauda do cometa é minúscula como a de um rato!
Como é frágil um raio de estrela, que se curva em qualquer espaço!
E aqui dois três quinze trezentos dezenove
meu número de telefone o número de tua camisa
o ano mil novecentos e setenta e três sexto andar
o número de habitantes sessenta e cinco centavos
a medida da cintura dois dedos uma charada um código,
no qual voa e canta descuidado um sabiá!
Por favor, mantenham-se calmos, senhoras e senhores,
céus e terra passarão
mas não o número pi, nunca, jamais.
Ele continua com seu extraordinário cinco,
seu refinado oito,
seu nunca derradeiro sete,
empurrando, sempre empurrando a preguiçosa
eternidade.
três vírgula um quatro um.
Todos os dígitos seguintes são apenas o começo,
cinco nove dois porque ele nunca termina.
Não se pode capturá-lo seis cinco três cinco com um olhar,
oito nove com o cálculo,
sete nove ou com a imaginação,
nem mesmo três dois três oito comparando-o de brincadeira
quatro seis com qualquer outra coisa
dois seis quatro três deste mundo.
A cobra mais comprida do planeta se estende por alguns metros e acaba.
Também são assim, embora mais longas, as serpentes das fábulas.
O cortejo de algarismos do número pi
alcança o final da página e não se detém.
Avança, percorre a mesa, o ar, marcha
sobre o muro, uma folha, um ninho de pássaro, nuvens, e chega ao céu,
até perder-se na insondável imensidão.
A cauda do cometa é minúscula como a de um rato!
Como é frágil um raio de estrela, que se curva em qualquer espaço!
E aqui dois três quinze trezentos dezenove
meu número de telefone o número de tua camisa
o ano mil novecentos e setenta e três sexto andar
o número de habitantes sessenta e cinco centavos
a medida da cintura dois dedos uma charada um código,
no qual voa e canta descuidado um sabiá!
Por favor, mantenham-se calmos, senhoras e senhores,
céus e terra passarão
mas não o número pi, nunca, jamais.
Ele continua com seu extraordinário cinco,
seu refinado oito,
seu nunca derradeiro sete,
empurrando, sempre empurrando a preguiçosa
eternidade.
sexta-feira, 2 de março de 2012
Uma Poesia sobre o Amor Despreocupado
- A -
Quando
eu desconhecia
o amor
era fácil dizê-lo.
E eu disse
a palavra amor
muitas vezes
e muitas vezes
muito cedo.
Hoje é tarde.
Eu sei o que é
o amor.
Eu já o vi
bem diante mim
mas hoje
me faltam palavras
para dizê-lo.
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